Ventor e o Bafo

 
         
  Diz-me assim, o Ventor:  
         
     
         
 

«Eu há milénios que por aqui ando e procuro cumprir os desígnios do Todo-Poderoso Senhor da Esfera, aquele de onde tudo emana;

Há milénios que desde que a Luz é Luz e a Noite é Noite, vivo intensamente de estrela em estrela, de planeta em planeta, e suporto o bafo da vida, desde que a sapiência do Senhor da Esfera teve a bondade de projectar num montículo de mica um boneco em forma de homem e no qual insuflou o fôlego da vida, o transformou em alma vivente e lhe chamou Adão;

 
         
     
         
 

Há milénios que vi o Senhor da Esfera plantar um jardim a que chamou Eden para servir o homem fazendo brotar da terra todas as árvores e todas as maravilhas para sua satisfação;

Há milénios que o Senhor da Esfera, para sua maior satisfação, fez nascer um rio que se dividia em quatro, com os seguintes nomes:

Pison, que rodeava a terra de Havila, onde havia ouro;

Gion, que rodeava toda a terra de Cush;

Hidequel que se dirigia para o lado do oriente da Assíria (hoje o chamado Tigre);

Eufrates; o rio de que muito ouviremos falar por amizade a Nemrod.

 
         
     
         
 

Há milénios que assisti à primeira catalogação da história da humanidade feita por Adão, pois o Senhor da Esfera entendeu, e bem, que o homem deveria ter uma ocupação encarregando-o assim de atribuir os nomes a todas as coisas por ele criadas.

Há milénios que também vi o Senhor da Esfera, devido à falta de matéria prima, roubar, por graça, uma costela ao Adão, para que também ele partilhasse da construção dessa obra prima que é a mulher e fizesse dela sua companheira.

 
         
     
         
  Há milénios que, por causa dela, assisti à primeira desavença neste planeta azul. Vi Deus furioso com Adão e expulsá-lo do Eden que ficou guardado por dois querubins, tendo Adão que ir fazer pela vida para fora de portas sendo despojado de todas as maravilhas que o Senhor tinha feito para ele.  
         
     
         
  Há milénios que vi, também, a primeira fiação que o mundo conheceu, pois Adão e Eva viram-se obrigados a fazer a sua própria alfaiataria utilizando folhas de figueira para fazerem as túnicas e aventais que passaram a usar. Não tenho a certeza das linhas usadas, mas parece-me que foi fio de cânhamo. Mas recordo muito bem a oferta que Eva me fez de um tecido igual ao deles para poder comparecer com eles naquele belo jardim. O fio principal que rodeava a cintura e segurava as folhas de figueira, recordo-me bem, era de cânhamo e penso que os outros também.  
         
     
         
  Assim, tudo o que era bom se foi num ápice e, pior ainda, é que as mulheres ficaram sempre com a mania de se intrometerem nas coisas dos homens.      
         
         
         
  Fora do jardim, no chão duro de onde tinham brotado, Adão e Eva tiveram de aprender a tratar as terras e os animais, e tiveram as suas primeiras criancinhas, que cresceram no encalço de seus pais, mas apareceram os problemas das divisões das terras tendo Caim morto Abel por causa de um marco. As ovelhas de Abel passaram para lá do marco das hortas do Caim, e como o mundo sabe, tudo acabou mal para os dois irmãos dando-se assim o primeiro homicídio nos humanos, originado no eterno princípio da luta entre o pastorício e os cuidados agrícolas. Mas só com dois já haviam marcos de divisão da propriedade, imaginem como isto andará hoje!      
         
       
         
  Adão e Eva, tiveram mais um filho, a que deram o nome de Seth mas eu, Ventor, que tive de me arredar para outros azimutes da galáctica por razões que estavam, à altura, para além dos interesses terrenos, perdi a sequência da prole com origem em Adão e Eva, nunca chegando a saber, a que ponto da Galáctica Caim e Seth, foram buscar suas esposas. Soube, no entanto, que tiveram filhos, e filhas, netos, bisnetos, tataranetos … os quais deram continuação à prole, que tornaram grandiosa, tendo a identificação de muitos deles sido perdida na vastidão dos tempos.  
         
 

 

 
         
  Mais tarde, deixei o extremo da Galáctica e voltei à Terra, e dentre todos relacionei-me mais com Lamech, que veio a ser o pai do meu grande amigo, o nosso famoso Noé.  
         
     
         
 

Aconteceu que encontrei instalada corrupção geral na humanidade Havia já, instalados na Terra, gigantes e varões de fama, uma espécie de jagunços que dominavam e se assenhoravam de toda a gente.

Verifiquei todos os males instalados, concluindo que a maldade do homem se multiplicara sobre a Terra e que toda a imaginação dos seus pensamentos era continuamente má. Esta foi a mesma conclusão a que chegaram os anjos enviados pelo Senhor da Esfera que, entretanto, me mandou fazer o meu próprio levantamento para uma aferição final com os seus enviados oficiais.

 
         
     
         
  Apresentei, na altura, no Concelho da Esfera, um relatório sobre a humanidade, que o Senhor da Esfera analisou e, apossado de grande fúria, despachou de imediato, dizendo: destruirei, sobre a face da Terra, o homem que criei, todo o animal até ao réptil e até às aves dos céus porque já estou arrependido de me ter posto a brincar com o barro!  
         
     
         
  A fúria era tão grande, que eu já estava arrependido de ser verdadeiro e justo no meu relatório. Porém, perante tanta violência que se havia instalado na Terra, concluí, alguma coisa devia ser feita, mas sempre a interceder para tentar salvar, pelo menos, os justos que, certamente, existiriam ainda. Estive muitos dias reunido com o Senhor da Esfera, na procura de uma solução em que pudesse ser aplicada alguma da justiça divina.  
         
     
         
  Enchi-me de coragem, e disse: “Senhor sabes que eu sou frontal nas minhas análises, e se me deste poderes alguns para interceder pela raça humana, fui justo a analisar e, agora, peço-te que sejas justo a julgar”.  
         
     
         
 

Partimos para o Concelho da Esfera, onde estavam representados todos aqueles que o Senhor da Esfera, entendeu colocar ao serviço da humanidade cada um com a sua função e onde todos os meus pares apresentaram, de sua justiça, uma defesa da humanidade.

Todos, por razões de interesse próprio, apresentaram o seu relatório, nenhum deles, convincente.

 
         
     
         
  Eu, que já estava farto de tanta conversa, todas sem incutir ponto algum que fosse convicto na mudança de rumo que ali nos tinha reunido que era salvar parte dos seres, homens e animais, que pudessem ainda ser recuperados para a continuação da vida na Terra, já desesperado disse: “Senhor, sempre continuarei na defesa das mesmas convicções que te apresentei nas nossas reuniões, para interpretação do meu relatório. Por isso, tenho de recolocar, doutra forma, nova solução para o problema”.  
         
     
         
 

“Sim, Ventor, pelos vistos, as tuas convicções, nunca se esgotam”- disse o Senhor da Esfera mal humorado. -.”Apresenta a tua nova ideia”.

 

“Senhor não é bem uma nova ideia, é, isso sim, uma constatação. Colocaste na Terra, o velho Adão, arranjaste-lhe uma companheira, e deixaste-o logo manietado com aquela provação, do come, não come, é ou não é, leis simples, tão simples, que até a filha do mal conseguiu ludibriar aqueles pobres coitados.

Zangaste-te logo com eles, votando-os ao ostracismo para fora do Éden e, ainda por cima, sujeita-los a todos os tipos de provações, obrigando Caim a matar o irmão só porque as ovelhas lhe comeram as culturas do lado de lá do marco, e também porque incutiste no espírito deles a rivalidade provocada pelo ciúme, originado no facto de aceitares de melhor grado a ovelha oferecida por Abel, mais do que os produtos da horta oferecidos por Caim.

Fui assim levado a fazer uma nova interpretação dos factos que nos trouxeram aqui e a concluir que afinal o ser homem foi apenas colocado neste Planeta para nos divertir. Sempre achei que uma obra como o homem, inicialmente edificada com tanto carinho, fosse para dar continuidade a todo este mundo que poderia ser maravilhoso com a presença dele, mas pelos vistos:

 
         
     
         
 

 -  Os rios vão continuar a oferecer água, sem haver homens nem animais para se banhar neles;

-   Os vales vão continuar a serem verdes e das suas fontes vão continuar a brotar águas límpidas e frescas sem homens  nem animais para as beber;

-  Nos céus os raios de Apolo continuarão a aquecer os ares do Planeta sem haver aves para que Apolo se deleite com a visão dos seus voos;

- E nós, iremos deixar de observar os devaneios provocados pelos amores de Vénus e de Diana, as desventuras de Mercúrio, e as estonteantes noitadas de Baco;

- e o Ventor continuou a enumerar as tristezas com o fim do mundo á vista. E prosseguiu ...

 Tenho notado a preocupação de Marte, que por razões diferentes das minhas tem procurado defender a continuidade do homem neste planeta tão lindo e azul”».…

E o Ventor, amigos, prosseguiu horas a fio na defesa da humanidade com todos, por razões diversas, muito atentos ao resultado final

 
         
 

 

 
         
 

Agora venham comigo gato8.jpg ouvir o Ventor falar dos tempos das cavernas, em Glória a la Vida. Se têm medo das cavernas, regressemos à Grande Caminhada.Lá podem escolher outras histórias e caminhar noutros trilhos.

 
         

 

 

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